Agualusa
Extractos de Entrevistas
As mulheres do meu pai. Editora Língua Geral, Rio de Janeiro, Brasil. 2007.
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Inicialmente, você pretendia escrever um roteiro para cinema. Como as palavras venceram a imagem?
A partir de certa altura comecei a compreender que tinha material para um romance, e também que a vida de algumas das pessoas que me acompanhavam na viagem, em particular a vida da Karen, era tão interessante quanto as idéias que queríamos desenvolver. Agradou-me a idéia de iludir o leitor, dando-lhe a sensação de estar assistindo à construção do romance. Mas é um fato que entre nós a ficção participa da realidade, interfere com ela, isso é assim mesmo. Só a realidade consegue inventar certos enredos, os enredos mais inverossímeis.
José Eduardo Agualusa – Agência Estado
Como em outros romances, aqui você adota uma atmosfera fantástica que traz a inevitável lembrança do realismo fantástico latino-americano (o cágado apaixonado por Leonardo Cohen, um pianista sem mãos). Como explica esse hibridismo estilístico?
Está vendo? O cágado existe realmente. Eu não conseguiria inventar um cágado melômano. Ele existe. O pianista sem mãos, esse criei-o a partir de uma fotografia de Yannis Kontos, que vi numa mostra do World Press Photo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A mim, mais do que o fantástico, que entre nós é algo absolutamente natural, interessa-me o absurdo. Interessa-me perceber a forma como o absurdo é capaz de se instalar solidamente no centro da realidade. As pessoas circulam ao seu redor e não dão por ele.
José Eduardo Agualusa – Agência Estado
Karen, a realizadora inglesa que transportou para o romance, diz que as personagens começam a existir a partir do momento em que aparecem nos sonhos. É assim que lhe surgem? Como nasceu Faustino Manso, o músico que deixou uma mulher em cada cidade por onde passou?
Nasceu de conversas com a Karen, que vive em Moçambique há mais de 15 anos. Propôs-me que a ajudasse a construir um roteiro que tivesse a ver com música e com a situação das mulheres em África. Tive a ideia de criar este músico angolano, que é muito real. A situação de alguém morrer e aparecerem no funeral as várias mulheres e os filhos das várias mulheres é algo vulgar. Não é estranho. É uma sátira...
José Eduardo Agualusa – DN Online
Há personagens verdadeiras, outras inventadas, num jogo de verdade e mentira que mantém até ao fim. Como nasceu esta forma?
O que demora mais quando se começa a escrever um livro é encontrar o tom certo e a estrutura. Divertiu-me criar a ilusão de que o leitor está a assistir à construção do romance a partir da viagem real que fizemos e de como essa viagem vai alimentando a ficção, sendo que ao mesmo tempo a ficção vai participando da realidade e influenciando-a. Divertiu-me, sobretudo, o facto de que nos nossos países a realidade tende a ser muito mais inverosímil do que a ficção.
José Eduardo Agualusa – DN Online
Como quando diz que "nas coincidências é onde a vida triunfa sobre a literatura"?
As situações mais inverosímeis provavelmente são verdadeiras porque ninguém as consegue imaginar a não ser a vida. Só a vida consegue imaginar situações totalmente inverosímeis. Há uma história sobre um músico importante em Moçambique, nos anos 70. Entrevistei-o. Ele contou que foi ao oftalmologista porque estava a ver mal e que o oftalmologista lhe disse: 'É inacreditável o senhor queixar-se de vista cansada sendo cego.' Depois disso encontrei uma filha dele em Angola e disse-lhe que tinha conhecido o pai e o tinha entrevistado. Ela disse-me: 'Ele deve ter contado muitas mentiras.' Respondi-lhe que achava que sim, falei-lhe da história de ver mal e ter descoberto que é cego. Ela disse: 'Não, isso é verdade.'
José Eduardo Agualusa – DN Online
Em As mulheres do meu pai, uma portuguesa nascida em Moçambique retorna à África para a buscar a história de seu pai. Esse movimento de "contrafluxo" está se tornando mais comum entre europeus de origem africana, que querem descobrir seu passado? Por quê?
Não creio que seja algo tão comum, mas acontece. Há exemplos disso na música. Uma grande cantora, como a Lura, de origem caboverdiana, aprendeu a falar crioulo já adulta, e hoje é vista mais como cabo-verdiana do que como portuguesa. Naturalmente, é as duas coisas. É uma boa portuguesa e uma boa caboverdiana. Podemos dizer o mesmo da Mariza, também ela mulata, portuguesa e moçambicana, e que soube renovar o fado porque trouxe para fado a sensualidade africana. Antes da Mariza o fado era a preto e branco e não tinha curvas. Em Portugal um afro-descendente é constantemente questionado acerca da sua origem. Isso por vezes magoa. A pessoa sente-se excluída e começa a buscar uma outra identidade. Alguns jovens portugueses, negros, voltam-se para o hip-hop, para o rap, para a cultura dos negros norte-americanos. Outros voltam-se para a cultura dos seus pais. Parece-me um movimento mais inteligente.
José Eduardo Agualusa – Época, Brasil
Onde explora a questão da identidade...
Preocupei-me com a identidade de uma maneira um pouco diferente. Tenho dois dos personagens principais, dois portugueses de origem africana, e uma questão que me interessava tratar mas nunca tratei: a dos novos portugueses. Quem são estas pessoas, esta nova geração de origem africana? Um tem maior preocupação com as suas origens, outro questiona-as.
José Eduardo Agualusa – DN Online